quarta-feira, outubro 30, 2002

Enfim, a vitória, 22 anos depois

Os meus dois irmãos mais velhos sempre olharam para mim com um misto de orgulho e ciúme. O segundo sentimento é óbvio, afinal, a caçulinha da família é sempre cercada de cuidados, nunca pode ir até a esquina comprar o pão porque é pequenininha e sempre é defendida no caso de uma muito provável briga de socos e pontapés com os filhos mais velhos. O orgulho até que às vezes era bem disfarçado, mas eu sempre percebi a felicidade deles a cada conquista minha: o boletim, o vestibular, o diploma universitário, o primeiro emprego, a mudança para um jornal grande, o apartamento alugado recentemente para morar sozinha...

E foi com essa mistura de sentimentos que eu acompanhei o meu irmão menor até vê-lo chegar agora ao topo. Em 1980, quando eu tinha quatro anos, meus pais tiveram um outro filho. Ele tomou muito do tempo dedicado a mim. Isso me incomodou no início. Ele exigia cuidados diferentes dos que foram dados a mim e a meus irmãos mais velhos. O novo caçula era festeiro. Em um mês, meu pai - que sempre foi um cozinheiro de mão cheia - fazia um angu à baiana e enchia a casa de amigos (que eram chamados de companheiros). No outro mês, um panelão de canja de galinha levava mais dezenas e dezenas de pessoas que eu nunca tinha visto para dentro da minha sala. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, eu até que gostava das festas. E tudo era motivo de festa. Também havia reuniões seriíssimas que levava umas 20 pessoas até minha casa. O assunto era o meu irmãozinho e eu ficava espiando pela porta entreaberta do quarto, onde meus pais presumiam que eu estava dormindo. Mas por que tanto se discutia esse moleque? Não basta ter apenas pai e mãe? Não, o meu irmão menor tinha uma infinidade de parentes. Nem eu havia sido tão paparicada... Ai que ciúme!

Fui crescendo, o ciúme foi acabando e no lugar dele cresceu o orgulho. Ficava feliz de ver cada conquista do meu irmãozinho em várias partes do país. Sim, meu irmão fazia sucesso e virou uma febre no Brasil todo. Em 1989, com apenas 9 aninhos, o moleque abusado resolveu que seria presidente. Meu pai, minha mãe, aqueles tios e tias que iam às festas lá em casa em 1980 agora já tinham se multiplicado por milhões. A famíila era grande e o moleque teria um bom apoio. Infelizmente, a primeira tentativa foi frustrada. Em 1994 e 1998, mais duas derrotas. Mas ele continuou crescendo, aparecendo, aprendendo e, sobretudo, merecendo.

Chegou 2002. Meus pais estavam um tanto decepcionados com o filho caçula que, aos 22 anos, havia se afastado um pouco do ideal que o cercava em 1980. O moleque estava em companhias suspeitas e seu Joaquim e dona Geyse se preocupavam muito com isso. Mas filho não se abandona e o amor falou mais alto: os dois voltaram a carregar no colo o garotão. Voltaram a sonhar com a possibilidade de um mundo melhor e se deram conta de que nunca estiveram tão perto disso. Eles estampavam no peito e no rosto o orgulho de ter ajudado a criar aquela criatura que levava milhões e milhões de brasileiros a sonhar com tempos melhores.

Domingo, 27 de outubro, eu estava na Praia de Icaraí comemorando com meu pai. Finalmente, o partido que ele ajudou a fundar em Niterói há 22 anos chegava ao topo. Minha mãe estava na Cinelândia, empunhando sua bandeira vermelha com a estrela branca. Meu irmão ficou em casa cuidando da sua pequena Ana Luísa, que nascera há apenas 11 dias. Minha irmã mais velha hoje mora em Fortaleza mas, certamente, de alguma maneira, estava comemorando a façanha do caçula da família. Durante a festa na praia, parou um daqueles companheiros da antiga, que freqüentava o angú à baiana e a canja de galinha, e gritou no ouvido do meu pai: "Joaquim, nós conseguimos!". O meu pai, com o olhar distante, respondeu apenas: "Em pensar que todas as fichas de filiação do partido cabiam em uma única caixa de sapato. E nós guardávamos aquela caixa como se fosse o nosso maior tesouro..."

terça-feira, outubro 15, 2002

SOLUÇÃO?

Para aqueles que acreditam que para salvar o futebol carioca só mesmo um super-herói, o Flamengo deu o primeiro passo, o clube acaba de eleger Super Helinho como presidente. Lembram dele? É aquele ricaço que, na falta do que fazer em 1986, candidatou-se a senador pelo estado do Rio e tinha a alcunha de Super Helinho, com direito a bonequinho voador e tudo. O número do cara era o mesmo que este ano representou o 666 na eleição carioca, 222. Mas, ao contrário de Crivella, o empresário ficou de fora do senado. Bom, agora ele é presidente do Flamengo, então tenho que torcer pelo sucesso dele, né? Fazer o que...

segunda-feira, outubro 07, 2002

ELEGEMOS A SENHORA CREYSSON

Nesta segunda-feira, acordei com um cheiro insuportável de rosas tomando a minha casa. Sentia que algo de estranho acontecia. Na rua, um carro de som estridente fazia entrar em minha casa o Elymar Santos. Cantor de pérolas eróticas como "Escancarando de Vez" e "Taras e Manias", ele estava cantando aquela que, sem dúvida alguma, é a música mais obscena e descarada de todo o seu repertório: o jingle da candidata Rosinha. Pior: o jingle da governadora eleita Rosinha. Sim, porque cinco minutos de olhos abertos foram suficientes para eu receber dois telefonemas, um do meu irmão e outro da minha mãe. Ambos com a mesma notícia: 51%, uma péssima idéia.

Na mesma hora, lembrei-me daquela mulher quase japonesa olhando para a câmera e dizendo que iria matar a minha fome, arranjar um emprego para mim. Lembrei-me da candidata quase autista que, durante o debate da Globo, insistia em dialogar exclusiva e unicamente com a câmera, ignorando a presença de outros três concorrentes e até a mediação de um jornalista. E, ato contínuo, lembrei-me do Seu Creysson. Sim, amigos, elegemos a Senhora Creysson. Com um discurso tão cheio de promessas vazias quanto o do personagem, aproveitando tanto a ingenuidade dos mais pobres quanto o personagem, Rosinha chega ao Palácio Guanabara. E assim como o candidato criado pelo Casseta & Planeta, a nossa próxima governadora também abusou das gafes lingüísticas. Ela prometeu reduzir a vasão escolar, acabar com o anafabetismo (será que a palavra escrita com o devido L na segunda sílaba lhe pareceu algum tipo de ato sexual?) e sábado, véspera da eleição, deu o golpe final ao aparecer na televisão em um direito de resposta concedido pelo TRE, quando jurou de pé junto que traria de volta a alta estima do povo do Rio de Janeiro. Não sei quanto a vocês, mas minha estima anda em baixa enquanto integrante do povo do Rio de Janeiro.

Lembrei-me de uma viagem que fiz a Porto Seguro, em 1993, excursão de colégio. Um belo dia, estávamos nós lá em um clube da cidade, cerca de 120 adolescentes no auge de seus 17 anos. Do outro lado, uns 30 paulistas chatos. A briga foi inevitável. Implicâncias de parte a parte que chegaram até ao alto-falante do clube. No Centro, uns 15 mineiros que resolveram entrar na briga só para não se sentirem excluídos. Mas nós, cariocas espertos, não nos incomodamos com os pães de queijo, nosso alvo era a galera do Rio Tietê. Tudo era apenas uma brincadeira saudável, mas naquele dia ganhamos a briga graças à superioridade numérica e à maior disposição conferida por nossa pouca idade, já que os adversários paulistas eram jovens senhores beirando os 30 anos. Hoje, quase 10 anos depois, eu sou uma jovem senhora beirando os 30 anos e estou do lado com inferioridade numérica. Se tivéssemos novamente um alto-falante à disposição, certamente os surfistas do Tietê ganhariam a briga, porque contra fatos não há argumentos: enquanto o malufismo parece ter sido definitivamente enterrado, os cariocas vêem (e fazem) nascer o garotinismo. Tudo bem paulistas, jogo a toalha. Podem nos gozar, implicar, divirtam-se! A festa é de vocês!