quinta-feira, março 28, 2002

VIAGEM DE ÔNIBUS

Do outro lado da rua, você vê o seu ônibus parado no ponto. Olho no sinal verde, olho no ônibus, olho no sinal verde... Fecha, fecha, fecha! Dá tempo. Corre atrás do coletivo, faz sinal com um sorrisinho camarada para o motorista, daqueles capazes de convencê-lo a abrir a porta traseira fora do ponto. Ufa, o próximo demoraria pelo menos meia hora. Uma olhadela rápida ainda do lado de fora te tranqüiliza: ninguém em pé, dá para sentar e tirar uma soneca. Puro engano. Não tinha ninguém em pé até você entrar, mas todos os lugares estão ocupados. E então um outro ônibus, da mesma linha, passa em disparada pelo que você está, cheio de bancos vazios. Primeira lição: quanto mais esforço se faz para pegar um ônibus, maior a probabilidade de ele estar lotado e logo depois passar um vazio.

"Tem R$ 0,10?" A pergunta do trocador é obrigatória, deve fazer parte do teste psicotécnico da categoria para conseguir um emprego. Quem for mais incisivo na pergunta fica com a vaga. Pacientemente, você coloca no chão as seis sacolas de supermercado que carrega e procura uma moedinha na bolsa. Sacode, sacode, remexe, fuça e, depois de tirar quase tudo da bolsa, finalmente entrega os R$ 0,10 ao trocador. Ele então abre a gavetinha para te dar o troco e não faz a menor questão de esconder a pilha de moedas que tem, o suficiente para te dar o troco sem pedir R$ 0,10, mas tudo bem. Você se agacha para apanhar as bolsas de supermercado e, quando está levantando, com três sacolas em cada mão, o motorista dá uma freada que te joga em cima da cadeira do trocador. Segunda lição: quanto mais sacolas você carrega, maior a probabilidade de o motorista dar uma freada brusca.

"Machucou?" Sempre tem um passageiro atencioso que faz questão de deixar bem claro que viu o mico que você pagou. O estágio seguinte seria começar a falar do quanto esses motoristas são descuidados, mas você apressa o passo e evita o constrangimento maior. Agora você é a única pessoa em pé no ônibus, todos os olhares são em sua direção. E você, enquanto tenta amparar as sacolas de supermercado com as pernas, segura naquele ferro do ônibus que te deixa com os braços esticados para cima. Se você não gosta desta posição, só lamento, porque raramente é possível segurar na alça metálica dos bancos, já que geralmente os passageiros que estão sentados, aqueles que teoricamente deveriam deixar esse espaço para você, que está em uma situação bem menos equilibrada, ocupam esses espaços. Você começa então a olhar fixamente para os que estão sentados. Todos se transformam em seus inimigos. O primeiro passo é tentar adivinhar quem vai descer primeiro. Então, coloque-se à frente desta pessoa. Claro que em 99% dos casos isso não dá certo. Daí você parte para a força do pensamento. Olha para todos e pensa: "Desce, desce, desce". Mas todos continuam imóveis. Terceira lição: a força do pensamento não adianta quando você está em pé no ônibus.

"Dá licença" Você já estava perdendo a esperança, dormindo em pé, quando finalmente alguém resolve descer. Você se apressa para pegar o lugar, se ajeita com as bolsas de supermercado e se prepara para dormir o sono dos justos. É hora de relaxar, a cabeça automaticamente cai para trás para aproveitar a almofadinha nada confortável que colocam no encosto dos bancos. Mas no susto você é obrigado a levantar rapidamente a cabeça, porque o infeliz que está sentado atrás resolveu ficar com a mão pousada no banco. Espere 10 segundos para ver se o cara se manca e deite a cabeça de novo. Pronto, agora sim. De repente, você acorda e vê uma casa, uma farmácia, um cinema, algo bem familiar que indique que está na hora de descer. Em desespero, você puxa a cordinha do sinal, pega as seis sacolas de supermercado e corre em direção à porta. O motorista pára 100 metros depois do ponto e pergunta com a cara mais deslavada do mundo: "Aqui tá bom?" Bom? Como assim bom? Quarta lição: A única coisa boa em uma viagem de ônibus é saber que, mais cedo ou mais tarde, chegará a hora de você descer.

segunda-feira, março 25, 2002

Tudo bem, Wooddy Allen foi a uma festa do Oscar. Pela primeira vez uma negra ganhou a estatueta de melhor atriz. Pela primeira vez houve premiação para o melhor longa-metragem de animação. Pela primeira vez... Mas o que eu mais gostei não foi nada disso. A entrega do Oscar me reservou uma descoberta interessante: a pronúncia dos nomes de alguns atores. Nos poucos 15 minutos em que acompanhei a transmissão do SBT, descobri que o vencedor na categoria melhor ator, que para mim sempre foi paroxítono - Denzel Washington, passou a ser chamado de Denzél pelo Rubens Ewald (ou Edwáld?) Filho. Renato Machado, no Bom Dia Brasil, seguiu a linha oxítona do colega cinéfilo. Como os caras entendem muito mais do riscado do que eu, obviamente já adotei esta pronúncia. E que ninguém ouse falar Dênzel na minha frente! Outra novidade foi em relação ao Sidney Poitier, um dos homenageados da noite. Sempre falei com o "O" fechado e com a tonicidade no "er", mas estava errada durante todo esse tempo. O nome do Mestre com carinho é Póitier. Assim mesmo, com o "O" aberto e ênfase na primeira sílaba. Assim falou Ewáld. E aposto que no Oscar 2003 ainda vão tascar um Sidnêy.

Outra constatação que fiz durante a transmissão: como o tempo faz bem a Robert Redford e mal a John Voigt. O primeiro estava lindo no palco, soberano, com sua beleza única e indiscutível contrastando com o acidente geográfico que é a Barbra Streissand. Um escândalo de tirar o fôlego. E aquele estalinho que ele deu na Barbra me fez suspirar e revirar os olhinhos de inveja dela. Já o segundo... Ai, que saudades do filme "O Campeão". Tudo bem que o cara nunca foi um Deus grego, mas não precisava se acabar tanto, né? Isso não é justo.

Na categoria performance, fico com a vencedora do Oscar de Melhor Atriz, Halle Berry. No momento clássico das cinco carinhas emparelhadas na tela, a dela era visivelmente a mais ansiosa, nervosa, beirando a histeria. E depois da famosa "And the Oscar goes to...", ela não decepcionou. Jogou-se para trás na cadeira, fez cara de quem não acreditava, cobriu o rosto com as mãos, beijou Deus e todo mundo, discursou muito mais tempo do que o permitido, agradeceu até aos seus advogados por aquele momento tão especial, enfim, fez tudo aquilo que a Academia considera gafe, mas que é indispensável em qualquer edição do Oscar.

Já programei as minhas próximas férias: em março de 2003 estarei em Hollywood e vou me misturar aos americanos e turistas que se estapeiam na entrada do Teatro Kodak para ver os astros passando pelo tapete vermelho. Não há nada melhor! Se der sorte, ainda consigo focar com um binóculo a ponta do cabelo de uma das atrizes indicadas ao prêmio de melhor coadjuvante, pode ser aquela que todos sabem que não ganhará, que entrou só para completar a lista...

segunda-feira, março 11, 2002

Sábado, 9 de março de 2002

"Rio declara guerra ao dengue"
"PCC faz mais dois atentados a bomba"
"Presidente do PFL: quem não deixar cargo é mau-caráter"
"Oriente Médio tem 45 mortes em um só dia"
"Tráfico incita quebra-quebra na Ilha"
"Varig aumenta capital e busca novos sócios"
"SEGUNDO CADERNO: Roger Waters revive a música do grupo Pink Floyd hoje no Rio."

Vem cá, vocês não sentiram falta de uma notícia importantíssima no jornal do último sábado? Claro, ninguém noticiou o meu aniversário, que falha absurda! Mas, mesmo sem sair no jornal, os amigos lembraram de me dar um abraço e desejar felicidades, isso é o que importa. Obrigada a todos que me abraçaram pessoalmente, por e-mail ou via celular. Fazer 26 anos não é lá muito agradável, mas tem essas compensações. Em pouco mais de 2,5 décadas de vida, já fiz muitos e grandes amigos. Certa vez ouvi dizer que quem tem muitos amigos é porque não tem nenhum. Como assim???? O autor dessa tese defendia que devemos nos entregar totalmente às amizades e que, por isso, os amigos devem ser poucos, para darmos conta. Pois eu tenho muitos amigos, alguns recentes, outros antiquérrimos, alguns vejo com freqüência, outros só de vez em quando, mas garanto que me entrego totalmente a todas essas amizades, sem exceção. Para mim, não há graduação entre amigos. Existe o conhecido, o colega e o amigo. Mas neste último grupo, não elejo os melhores. Existem, é claro, aqueles com quem convivemos mais e por isso temos uma afinidade maior, mas isso não os torna melhores que os outros. Amigo é amigo e ponto final. E eu tenho muitos, graças a Deus!

segunda-feira, março 04, 2002

Personagens maravilhosos de uma cidade desconhecida

Um fim-de-semana por mês, quando estou de plantão, conheço um pouco mais do Rio de Janeiro. Como niteroiense convicta, não conheço nada no Rio além da Praça XV e das redondezas do meu trabalho, o que é suficiente para explicar a minha surpresa diante de cada novo bairro que visito. Sei ir ao Maracanã, ao Canecão e ao Mercado São José, em Laranjeiras, mas só saindo de ônibus de Niterói, onde pego o 703, o 740D ou o 996 na Praia de Icaraí. Mas, a cada fim-de-semana de trabalho, dentro do carro de reportagem, amplio um pouco meus horizontes. No último domingo, conheci Sulacap. A minha primeira reação foi de uma certa indignação, como podem os cariocas ousarem dizer que Niterói é longe se dentro da própria cidade deles há distâncias inimagináveis? Refeita da viagem e da pauta pesada, a cobertura de um enterro, rumei para o Hospital Municipal Salgado Filho, em busca de um paciente com dengue. Qual não foi minha surpresa quando vi que, no Méier, ainda se anda de charrete! E eu que pensava que só lá na longínqua Região Oceânica de Niterói, onde eu moro, que cavalo ainda era meio de transporte.
As minhas melhores descobertas do último plantão, no entanto, não foram de lugares do Rio, mas de personagens maravilhosos que vivem nesta cidade. Parada na porta do Salgado Filho, fiquei observando três mendigos que estavam deitados em uma escada. Um parecia sonolento e não dava uma palavra. Os outros dois estavam muito alegres, provavelmente graças ao efeito provocado pelo líquido da garrafa que estava ao lado deles, já praticamente vazia. Os dois cantavam felizes da vida, ela fazia a primeira voz e ele acompanhava no coro, formavam uma espécie de Jane & Herondi das ruas. Mas o repertório, surpreendentemente, não incluía músicas do nível de "Não se vá". Em um inglês nada britânico, a mendiga cantava "Imagine", de John Lennon. E posso garantir a vocês que, mesmo longe dos holofotes do show business e da vida em geral, à margem de tudo, ela criou uma versão bem melhor do que a gravada por Paulo Ricardo. Aquele momento era inacreditável. A minha vontade era esquecer a pauta que estava cobrindo e sentar ao lado deles na escada, cantar junto, mas me limitei a dar um sorriso e fazer um sinal de positivo com o polegar. Foi a deixa para a cantora dizer: "A moça tá gostando, vamos cantar outra pra ela". E de bate-pronto puxou "Let it be", de John e Paul. Aí já foi demais, a mulher tocou no meu ponto fraco. "Let it be"? Ah, essa eu tinha que cantar também... Mas o carro chegou e me levou de volta à redação. A imagem daqueles mendigos cantando Beatles ainda não saiu da minha cabeça. E para mim, agora, os versos de uma das minhas canções favoritas ganham mais sentido:

"And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be"